Opinião: Um dia para não se esquecer

| 23/11/2012 | Comentários (12)

Tragédia anunciada: cartaz exposto num supermercado nessa semana

“A Liquidação do ano”. “Bota fora”. “O patrão ficou maluco”. Quem recebe e-mails das lojas nacionais é dia após dia bombardeado com mensagens que fazem a adrenalina de qualquer consumidor ir de 0 a 100 em menos de um segundo. Mas geralmente na mesma velocidade, só que inversa, a adrenalina recua e é substituída pelo sentimento de decepção ao ver que não há nenhuma liquidação de verdade, que se eles botarão para fora não será em direção à sua casa e que a sanidade do patrão continua aceitável.

Os chamarizes das lojas nacionais não raro provam-se ser desproporcionais ao que é ofertado e o consumidor um pouco mais atento não cai nesse tipo de armadilha barata. E como temido, o mesmo se sucedeu à Black Friday no Brasil em 2012. Como para o e-commerce brasileiro tudo é motivo para alarde, a já tradicional maior liquidação do ano nos Estados Unidos era um prato cheio para as lojas prometerem o mesmo por aqui.

Em sua terceira tentativa de emplacar aqui no Brasil, o e-commerce brasileiro deu novamente evidentes constatações de que está a anos-luz da seriedade com que o tema é tratado pelas grandes lojas nos Estados Unidos. A promessa não cumprida de se realizar uma grande liquidação, com reduções reais de preços, é só a ponta do iceberg.

Numa clara demonstração de falta de planejamento (ou seria capacidade para se planejar?) sites de grandes lojas nacionais foram caindo como que por efeito dominó assim que as prometidas ofertas entraram no ar. Toda a infra-estrutura que imaginamos que há por trás não foi capaz de permitir que o consumidor simplesmente abrisse a página da loja. Transpondo para o mundo físico é uma situação tão surreal como você não conseguir entrar na loja porque os funcionários não conseguem abrir a porta.

Quando o consumidor conseguia abrir o site se deparava com situações bizarras que pareciam ocorrer numa terra sem lei ou ao menos num lugar onde não tivessem escrito ainda um tal de Código de Defesa do Consumidor. Valor anunciado numa página não batia com o que era exibido no carrinho de compras e um terceiro valor aparecia no final do pedido. E quando você achava que enfim havia descoberto o quanto pagaria pelo produto, surpresa! O boleto era gerado com um quarto valor diferente. Quando não um produto era adicionado ao carrinho mas ao procurá-lo lá, ele havia simplesmente sumido. Não sei você, mas se eu estou numa loja física em que os produtos somem misteriosamente do meu carrinho de compras, eu não fico por lá não. Isso para não falar dos já tradicionais e clássicos cancelamentos de pedidos pelos mesmos motivos que já nos acostumamos (O quê?!) a conviver.

Enquanto isso, Amazon americana e britânica recebiam uma monstruosidade de acessos do mundo inteiro, desde domingo e não se havia reportado “sobrecarga”, “instabilidade no sistema por conta de acessos acima do esperado”, “serviços prestes a serem restabelecidos”. Como que por mágica, todas as ofertas prometidas antecipadamente estavam sendo cumpridas por lá, no exato segundo em que se havia programado. Os produtos eram, na maior parte das vezes, aquilo que os consumidores realmente queriam, não o que já estava obsoleto. E os descontos eram de verdade. A frase “preço nunca visto antes” coube à maioria das grandes ofertas das lojas de Jeff Bezos.

E mesmo nesse período turbulento, a Amazon continuou a atender o cliente de forma exemplar e não se importou em “sair no prejuízo” em situações que não tinha culpa mas que preferiu priorizar a satisfação de seu ativo mais importante.

Todo esse mundo que parece ser de fantasia só é visto assim por nós porque nos acostumamos com o descaso, com o mal atendimento, com o conseguir fechar um pedido na marra mesmo contra a vontade do site, entre outras. Mas pensando friamente, a Amazon não faz nada mais além daquilo que deveria ser feito. Ela não entrega produtos de graça – seu domínio tampouco termina com .org – mas ela simplesmente sabe o que tem que fazer, quando fazer, como fazer e faz.

A incompetência e amadorismo com que um assunto sério como comércio eletrônico é tratado no Brasil significa para players como a Amazon apenas um coisa: oportunidade. Já vivemos numa época em que não toleramos mais certas situações que até pouco tempo atrás eram aceitáveis (Lembra como antes se fumava em restaurante e em aviões?!). Simplesmente, quem não evoluir para acompanhar o crescente grau de exigência da sociedade não sobreviverá. Assim como hoje rimos quando lembramos que um dia almoçávamos ao lado de um fumante (ou talvez até fôssemos o fumante em questão) e aceitávamos isso, um dia também riremos de como sofríamos com o e-commerce local.

Faço apenas um pedido às lojas nacionais: se não for possível usar a catastrófica experiência que foi esse dia 23 de Novembro para vocês como lição para corrigir os erros praticados, por favor, não usem no ano que vem o nome Black Friday. Isso que vocês fizeram não foi Black Friday. No dia 22 de Novembro de 2013 me mandem sim e-mails com ofertas, mas chamem de outra coisa qualquer. Se não for possível atender meu pedido, aí vai minha primeira previsão para a Black Friday 2013: “Procon notifica empresas por suposta maquiagem de descontos“.

Essa matéria foi publicada simultâneamente no BJC.

Category: Extras

Comments (12)

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  1. Gabriel Molinari disse:

    E o curioso é que até o Jornal Nacional da rede Globo divulgou a Black Friday brasileira como um dia espetacular de promoções. Muitos ingênuos dando entrevistas emocionados com os "grandes negócios" que fizeram. Agora sim que as lojas vão utilizar este nome.

  2. Excelente texto, triste realidade. Eu esperava que daria para fazer alguma compra nas lojas nacionais nessa suposta Black Friday daqui, mas que engano. Ainda estou como otário tentando fechar alguns pedidos, mas os preços mudam, ou a página cai, ou não avança. Ridículo. E vender produtos com os mesmos descontos habituais, bom, é um falta de vergonha tão grande quanto o despreparo do nosso e-commerce.

  3. Raimundo Norberto disse:

    Ainda bem que nem perdi meu tempo nessa #BlackFridayFailBrasil… Gastei meu dinheirinho suado na Steam e na Amazon…

  4. Wellington disse:

    Esse ano foi minha primeira blackFriday e estava ancioso pelos descontos que até vieram em lojas como submarino e americanas, mas apenas como enganação. Comecei a acessar estes sites a meia-noite e os produtos sempre apareciam com preços diferentes no carrinho e tem pedido que estou tentando fechar até agora. Acho que o procon deveria ajir de forma enérgica e punir estas empresas pois só assim teremos alguma chance de melhoras… é MUITA DECEPÇÃO!!!!!!

  5. ToninhoJoker disse:

    Tentei varias vezes comprar no sub, mas não consegui sequer visualizar o carrinho #EPICFAIL

  6. WALTER A. CARNEIRO disse:

    O que as pessoas tem dificuldade de entender, talvez por puro desconhecimento da história real, diz respeito apenas à diferença de culturas entre as tradições que existem entre os povos latinos e os anglo-saxões (Ingleses, Alemães, etc., e por tabela Americanos). O Latino tem como premissa principal levar vantagem em tudo, não importa como e por quanto, desde que seja pelo máximo, mesmo que seja para sacrificar a fidelização do cliente. Preferem fabricar pouco para vender caro com vistas a lucrar apenas no preço, ao passo que os anglo-saxões desenvolveram, com o tempo, uma forma mais inteligente de atuar junto ao cliente em potencial: vender em grande quantidade por um preço mais próximo da realidade do mercado diluindo assim o custo da produção pela quantidade fabricada e vendida, técnica que os Chineses (os orientais) estão aplicando em cima do mundo, com a diferença de que seus produtos ainda ficam devendo muito em termos de qualidade intrínseca, com raras exceções. Enquanto isso, por aqui teremos sempre uma "Black Friday of Lies" com a conivência das nossas autoridades e dos que gostam de ser enganados…

  7. Eraldo Rocha disse:

    Texto maravilhoso, so discordo em 2 pontos, o primeiro foi nas promoções que os sites daqui fizeram, para mim tinha otimos itens a bons preços, como o box muito recente do Homem-aranha por 55 e o mais recente ainda indiana jones por 95, alem do de 007, mas ai a competencia entra em cena e vc simplemente não consegue fazer a compra, UM ABSURDO. O segundo fica por conta das Amazons que esse ano tambem não foram essa maravilha toda, pouquissimas promoções realmente interessantes principalmente no UK.

  8. Flavio Zigbin disse:

    A Submarino não conseguiu fazer uma Black Friday no mínimo decente, e agora está anunciando uma Cyber Monday… Não desistem de passar vergonha e zoar com a cara do consumidor!!!!!

  9. Rod disse:

    minha opinião (e acompanhei bem de perto a Black Friday aqui) é que existiram sim boas promoções. Claro que nunca vai ser comparado ao que acontece nos EUA, mas tiveram bons descontos em produtos selecionados. O maior problema esse ano então nem foi a falta de promoções e sim a falta de INFRAESTRUTURA dos sites. À 00:00Hs de Sexta todos os sites que promoveram a Black Friday estavam fora ou extremamente lentos. Como as ofertas dependiam da quantidade em estoque e/ou numeração específica (no caso de roupas e sapatos), acabou sendo ainda mais frustante não conseguir nem acessar o site. Estamos falando de um conceito de promoções que vale o "quem comprar primeiro" (mesmo lá nos EUA), então ficar de fora por causa de infraestrutura e mal planejamento dos sites é foda. Como comparativo, o maior site de comércio eletrônico do mundo, a Amazon, que estava sendo acessada loucamente por todo mundo, do mundo todo, não caiu ou ficou lento nenhuma vez.

    Enfim.. acho que houve muito marketing em cima esse ano e muitos marinheiros de primeira viagem que foram procurar no google pra descobrir o que era Black Friday em cima da hora (e acharam que a daqui seria como a de lá) acabaram ficando frustrados e fazendo barulho. Mas, de novo, existiram boas promoções. E durante o período de duas horas que eu fiquei tentando (de 00:00Hs de Sexta às 02:00Hs) eu consegui comprar tudo o que queria, em sites diferentes. Alguns tive que insistir, mas acabei conseguindo.

    Acompanho a Black Friday daqui desde que começou e, mesmo com todos os problemas de Infra, esse foi o melhor ano em termos de oferta. Estamos caminhando na direção certa. Mas se a Amazon chegar, com certeza a coisa vai melhorar por aqui.

  10. Velho huno disse:

    é o black fraude….hehehehehe….

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