Opinião: Um dia para não se esquecer – Parte 2

| 30/11/2013 | Comentários (20)

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Parece que o Cebolinha cabulou as aulas de inglês

Parece que o Cebolinha cabulou as aulas de inglês

Sob muita suspeita de quem havia participado da edição 2012, eis que passamos por mais uma Black Friday no Brasil. Nunca esse evento teve tanta divulgação e aderência do comércio (de posto de combustível a construtoras), com publicidade espalhada pelas ruas e sendo exibida a exaustão no horário nobre da televisão. Era inevitável não saber que algo grande estava programado para esse 29 de Novembro.

Só que a imagem criada pela Black Friday no Brasil no ano passado havia sido a pior possível, com falsas ofertas (o famoso “tudo pela metade do dobro”), sites caindo como que por efeito dominó e reclamações, muitas reclamações de quem tentou e de quem conseguiu comprar. Para um melhor exercício de memória, recomendo a leitura da análise que fiz ano passado da pífia tentativa brasileira de replicar o grande dia de ofertas do varejo norte-americano – a chamada “Parte 1” dessa matéria.

Foi a edição desse ano a redenção? O evento tentou se levar mais a sério nesse ano com o comprometimento prévio das lojas participantes de que dessa vez ofereceriam descontos reais. Elas disseram: “Nesse ano haverá descontos de verdade”, num claro reconhecimento da maquiagem de preços ocorrida ano passado.

E houve descontos de verdade? Matematicamente falando, sim, se você considerar que 5% ou 10% é um desconto. Mas se copiamos a prática dos norte-americanos da Black Friday, vamos também comparar a profundidade de desconto, não? De modo geral o desconto efetivo visto na Black Friday brasileira (e aqui não estou falando só de Blu-rays) não ficou nem perto do que o varejo americano oferece nessa mesma época do ano.

Como aqui nossas lojas são mais espertas que as de fora, elas anunciam o desconto sobre o preço regular do produto, não sobre o preço de fato praticado. Trocando em miúdos, todo dia você vê produtos sendo vendidos “De R$ X por R$ Y“. Na Black Friday brasileira o “até 80% de desconto” era anunciado tendo como base o valor X, não o Y. Assim, num fácil exercício matemático era possível descobrir que o preço era muitas vezes apenas 5% ou 10% mais barato do que aquele praticado na véspera, por exemplo. E como é lá fora?

A Amazon mais uma vez deu uma demonstração de que não compartilha dessa prática, como foi visto, por exemplo, no box Arrow:

  • Preço regular (aquele pelo qual nunca o produto é vendido): US$ 69,97
  • Preço com desconto (aquele pelo qual o produto é oferecido normalmente): US$ 36,99 (43% de desconto)
  • Preço Black Friday (aquele pelo qual o produto foi vendido na semana da Black Friday): US$ 16,99 (76% de desconto)
  • Preço Lightning Deal (oferta limitada num dos dias da semana da Black Friday): US$ 9,98 (86% de desconto)

Se fosse na Black Friday Brasil, é bem provável que o box acima dificilmente atingiria sequer 50% de desconto, bem distante dos 86% oferecidos pela Amazon. Em suma, já que estava todo mundo de olho, as lojas nacionais deram sim desconto, mas nada comparado com a profundidade de desconto oferecida pelo comércio norte-americano. Foi mais um cala a boca aos órgãos de controle e aos consumidores do que uma aderência ao conceito em si.

De fato, Black Friday não corre nas veias dos varejistas daqui, que demonstraram novamente não terem ainda entendido o conceito da coisa (maior profundidade de desconto, consumidores aguardando ansiosamente do lado de fora da loja, estoque decente, exemplar atendimento ao cliente, etc.).

Houve sim exceções, com descontos que realmente foram significativos. Só que quando eram produtos de grande interesse o estoque era simbólico (10 unidades de X-Box One “por preço de EUA” no Kabum) e a promoção durava poucos minutos (Blu-rays a R$ 4 no Submarino quinta à tarde; iPad Retina por R$ 998 no Walmart ou mini por menos de R$ 700 na Saraiva). É muito pouco…é migalha. O consumidor brasileiro que já é lesado o ano inteiro de incontáveis maneiras merecia algo melhor.

Deixando de lado o fator preço, os outros erros do ano passado se repetiram em 2013. Na quinta-feira à noite os sites de todas as grandes lojas caíram com o excesso de visitas. Numa solução tipicamente brasileira, quem tentava entrar no Submarino/Americanas em horários de pico era recebido com um surreal pedido para aguardar na fila. Já a Saraiva achou graça no fato do cliente estar acordado de madrugada tentando entrar na sua loja: Nóis trupica mas não cai. Estamos de volta, foi a mensagem postada em sua conta do Twitter. De verdade, parece que falta muito pouco para as lojas literalmente estenderem cartazes com os dizeres “Sejam bem vindos, trouxas”.

O felizardo que conseguia entrar no site da loja ainda teve que lidar com um velho companheiro nosso de Black Friday: o maldito carrinho de compras. Ah, esse rebelde que teima em jogar fora aquilo que colocamos nele. Mas também, quem mandou a loja oferecer Coca-Cola (sim, a bebida, não a grife) como produto de destaque para a Black Friday?!

E na hora de pagar, depois de ter completada toda essa via sacra, o felizardo descobria que a loja não aceitava mais pagamento via boleto. Mesmo assim o felizardo superou isso e fechou o pedido com outra forma de pagamento. Ele só não podia esquecer da velha máxima do e-commerce brasileiro: “O jogo, digo, o pedido, só acaba quando termina“. Fechou o pedido e não recebeu confirmação da compra? Por aqui, normal. O pedido não consta no seu histórico da loja? Acontece. Receber um e-mail horas depois informando que a compra está cancelada porque o produto não existe em estoque? A coisa mais normal do mundo. Eu disse felizardo?

Há de se reconhecer o avanço em relação a edição do ano passado, mas ainda é um avanço a passos de bebê. Isso ocorre por acomodação: o e-commerce nacional se acostumou a tratar mal seu cliente, que por sua vez se acostumou a ser tratado mal (ou você não se emocionou quando a Amazon resolveu seu problema logo de cara?). Num ambiente cada vez mais competitivo as ponto com daqui demonstraram novamente serem absolutamente vulneráveis a chegada de um competidor que apenas saiba fazer a lição de casa.

Ano que vem, se todos sobrevivermos a Copa, tem mais.

Essa matéria foi publicada simultâneamente no BJC.

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Comments (20)

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  1. washington disse:

    Poucos minutos? 3 segundos compraram os 10 Xbox One da Kabum foi mágica. Agora engraçado, a Kabum colocou Fifa 14 PS3 á R$ 149,90 sendo que no Submarino estava R$ 107.90 isso é desconto de Black Friday? Falaram que venderam 300 unidades em 7 segundos, só se o consumidor for burro para pagar mais caro no mesmo produto, eu pessoalmente acompanhei os anúncios da Kabum e surgiam os links no Facebook já estavam esgotados o estoque! única coisa que comprei foi BF4 PS3 á R$ 100,00 na Americanas, mas teve Xperia Zq á R$ 799,90 no Walmart, Ps vita 719,00 Ponto Frio, mas o e-commerce nacional está engatinhando em comparação nem vou citar umpaís inteiro somente uma loja "Amazon"!

  2. 47CARNEIRO disse:

    Excelente o artigo em questão que abordou, resumidamente, tudo o que nós consumidores pensamos verdadeiramente da nossa "Black Friday" (Black Fraude, como batizou, corretamente, um dos nossos colega consumidor). O nosso problema é de pura "cultura comercial insipiente". Herdamos uma cultura de subserviência política à Coroa Portuguesa que era subserviente ao papado católico da época, e essa subserviência que sobrevive ainda até hoje, desafiada em alguns momentos importantes da História do Brasil, acabou criando o tal "jeitinho brasileiro" com o qual todos nos compactuamos quando nos é favorável, independente das consequências morais à cidadania de cada um. Eis aí um dos resultados mesquinhos da nossa "brasilidade sem compromissos"…

    • Aventureiro? disse:

      Sergio Buarque de Holanda nunca disse que qualquer outra influencia, que não a portuguesa, fosse melhor ao Brasil. Assim, também não o fez ao dizer que a influencia portuguesa fosse péssima. A comparação que ele propôs não era tinha esse fim.

      • Aventureiro? disse:

        Gilberto Freyre NÃO fez juízo de valor a respeito da influência portuguesa senão para redimi-la na formação da identidade nacional. As características que você citou não a justificam como péssima. "Casa-grande & Senzala" é um excelente livro e você parece estar precisando relê-lo.

        • Mauricio2000 disse:

          Vamos começar do zero pois eu acabei por trocar os nomes.

          Eis uma citação de Sergio buarque de Holanda que acabei de tirar de minha apostila do curso de historia e que fala da questao da colonização portuguesa.

          Este estudo procura discutir a relevância das relações raciais, a visão positiva do autor sobre a colonização foi interpretada por seus críticos como um esvaziamento do conflito entre colonizador e colonizado. Outros autores, como Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, obra contemporânea à de Freyre, viram na colonização portuguesa seu aspecto violento e predatório. Gilberto Freyre retratou em Casa Grande & Senzala as relações sociais e o cenário do Brasil colonial a partir de sua terra natal, sob a influência da antropologia cultural norte-americana em sua formação acadêmica.

          Eis ai um dos pensamentos de Sergio Buarque (o nome é esse mesmo), acerca da colonização portuguesa.

          Sérgio Buarque crítica o Estado brasileiro, no qual predomina o modelo da família patriarcal, sem a constituição de uma organização burocrática eficiente, mas composto de um corpo com despreparo técnico o que sabota a construção de um Estado moderno. O traço que melhor define esse neoportuguês seria a noção de “homem cordial”, oriundo de Portugal e que se consolidou como um traço definido do caráter do brasileiro. O ser cordial e suas qualidades: a generosidade e a hospitalidade, Sérgio Buarque defende a ideia de que tais características nada têm de civilidade. São na verdade traços de um paternalismo que só atrasa o desenvolvimento do Brasil.

          Era o termo "Homem cordial" que tentava lembar acerca dos ideias de Sergio Buarque de Holanda e os portugueses.

          • Aventureiro? disse:

            O termo "homem cordial" não era tratado por Sergio Buarque de Holanda com demérito, mas apenas algumas características desse conceito eram criticadas por ele. Tais características foram tratadas na citação que você copiou.

            Isso não quer dizer que sejam elas todas advindas da herança portuguesa, também, tendo em vista que o paternalismo, por exemplo, não foi uma invenção portuguesa, já que ele existe em outras nações as quais não foram colonizadas por Portugal.

            O "homem cordial" é um traço significativo da identidade nacional? É sim, mas isso NUNCA foi algo que justificasse simploriamente o fato de que só no Brasil há leis que não funcionam ou pessoas que só pensam em si. Se o fizesse, já teriam acusado Sergio Buarque de Holanda de determinista, o que ele nunca foi.

          • Mauricio2000 disse:

            Em nenhum momento tornei o termo Homem cordial simplório, apenas ressaltei sua importância mediante ao nosso "jeitinho Brasileiro" de ser.

            Contextualizando com o tema original deste post, o que eu quis mostrar foi que o jeitinho brasileiro é este mal terrível de se tentar levar vantagem tudo, seja nas coisas mais simples, até as mais complexas como o e-commerce eletrônico e sua Black Friday absolutamente irregular e danosa aos consumidores.

            Acerca de Portugal, sem duvida nos legaram aspectos positivos com sua rica cultura, mas também nos deixaram marcas e/ou cicatrizes que aparentemente nunca curam e permanecem no bojo dos hábitos brasileiros.

  3. Cristiana disse:

    Ao menos neste ano consegui pegar algumas coisas boas no Brasil. Peguei um HD portátil de 1tb da samsung por 199 reais na americanas (menor preço q eu já tinha visto até o momento), peguei umas fontes de 600w modular da Corsair no Megamamute (mais barata que a de 500w), e peguei também o Battlefield 4 por 40 reais no Megamamute (edição na caixa)

  4. ronaldotokuno disse:

    Acho que o termo "Black Friday" deveria ser proibido pelo governo brasileiro. Sabemos que o dia, nos EUA, é de um dia em que o governo renuncia aos impostos para que as lojas vendam mais e entrem "no preto", que é o entrar "no azul" por aqui. Ou seja, por lá, as lojas conseguem vender com desconto simplesmente porque os impostos não são cobrados. Aqui, nunca na história deste país, governo nenhum irá renunciar um dia sequer de imposto. Os produtos com desconto possuem os famigerados impostos. Isso também não quer dizer que as .com.br praticam heroísmo. Apenas pegam carona no marketing que rola lá fora.

    Resumo da ópera: se o governo não deixa de cobrar impostos apenas um dia do ano para que as lojas entrem "no preto", não deve permitir que se faça "Black Friday" no Brasil.

  5. Mauricio2000 disse:

    Boa exemplificação!!

  6. LEXSALOMAO disse:

    comprei 7 blus no sub guerra z por 4, gijoe por 4 e uma tanto assim mas depois de passar o cartão do submarino ele NÃO FOI APROVADO ..ta pago . tem limite , e preenchi corretamente ..pra mim isso e PERIGO DE GOL ou seja aquela tática do juiz q ve q o adversário ta pra fazer gol no seu time ele apita ate tropeço dizendo q e falta ….isso e tática pra não vender e não tomar prejuízo e torce pro cliente desistir

  7. Carlonis disse:

    Olha o extra até que teve umas ofertas boas (apesar da Coca-Cola…..hehehehe…), eu tinha comprado um xbox360 de 250GB com halo 4 e tomb raider para colocar no quarto umas semanas antes por 999 que era um preço razoável pelo que tinha visto nas lojas e no black Friday estava 799 e vi uma oferta do 360 de 4gb com kinectic e mais um jogo por 499 reais (não lembro a loja veio no meu e-mail). O Ipad mini eu vi mas cara nem é lá uma grande oferta pois vc acha algumas vezes o 16GB wifi por 800 reais, eu comprei um para a patroa por 799 no boleto nas americanas faz umas 3 semanas, no final essa black Friday brasileira continua sendo a boa e velha black fraude pois se vc fica de olho sempre acha ofertas boas durante o ano inteiro.

  8. Excelente análise! Pareceu melhor que a anterior, mas o que comprei aqui sequer me entusiasmou — aproveitei para pegar vários presentes para o Natal, mas com descontos nada arrasadores. Perdi a promo de BDs do Sub daquela tarde, mas o lógico seria que aqueles preços ficassem fixos durante todo o dia. Problemas técnicos emperrando as compras talvez tenha sido o mais frustrante, só lá pelas duas da madrugada os sites pareciam mais estáveis. Cobrar frete que "compensa" os descontos, algo que deveria ter sido eliminado nessa ocasião, permaneceu (porque você pagar o frete não assegura em nada você de receber o produto com embalagem quebrada e mal acondicionado, quando não cheio de pó, amassado, riscado…). Lojas brasileiras têm muito, muito a melhorar. Enquanto isso não acontece, vou continuar me emocionando com o atendimento da Amazon.

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